sábado, 15 de janeiro de 2011

Textos



EM NOME DA HONRA E DA GLÓRIA


A capelinha ficava no alto do morro. A subida era um caminho íngreme, a vegetação crescia aceleradamente cobrindo todo o cenário histórico. As trepadeiras pareciam ser estendidas manualmente por algum artista para tornar aquele ambiente ainda mais misterioso e belo – era a própria natureza que dizia sim á vida. Com o tempo os poucos moradores resolveram abandonar as suas casinhas e fugir das páginas daquele conto de terror e de fadas, de amor e glórias. Poucos curiosos vinham visitar aquele povoado perdido entre os matagais de uma região inóspita.

Tudo aconteceu na década de 70 quando alguns homens foram para a região do Araguaia em nome da ordem e da moralidade. O pequeno povoado às margens do rio Araguaia ficou basicamente com suas mulheres e crianças. Os valentes maridos resolveram defender uma bandeira contra os milhares de estudantes e profissionais liberais que vieram de outros estados. Era a Guerrilha do Araguaia!

As pessoas daquele pequeno povoado não sabiam o que significava aquele movimento, só sabiam o que ouviam pela rádio, que era preciso resgatar a ordem e a moralidade no país e que os comunistas eram uma ameaça para o Brasil. Os homens reuniam-se na única taberna do local “Taberna do Cumpadi Chico Cibola” para ouvir as mensagens do governo militar. Emílio Garrastazu Médici era o presidente e eles ao som de uma cantiga de viola e uma boa cachaça veneravam o discurso do presidente “Medi” como chamavam na região.

Aqueles trabalhadores perdidos na região do Araguaia não sabiam que os setenta e nove guerrilheiros do PCdoB- Partido Comunista do Brasil foram torturados, desaparecidos e dizimados por cinco mil soldados. Uma operação sigilosa que somente os moradores de São Geraldo e Marabá no Pará assistiram estarrecidos, até o mundo começar a abrir as cortinas secretas deste extermínio. Mas aqueles homens queriam defender o presidente e o Brasil.

Dentre as poucas pessoas que ficaram no povoado, Maria Eugênia tornou-se líder da comunidade. Sempre era ela, junto com as treze filhas, que comandava e organizava os eventos realizados no povoado, desde a missa à organização da pesca. Era uma sociedade basicamente matriarcal, apesar dos poucos homens terem uma história de bravura e coragem. O mais temido de todos era Salazar Brutus, como era conhecido, marido de Maria Eugênia e pai das treze Marias: Maria Lúcia, Maria Cecília, Maria Clara, Maria Lara, Maria José, Maria das Dores, Maria da Cruz, Maria dos Milagres, Maria dos Remédios, Maria da Conceição, Maria Riacho Doce, Maria Lua e Maria das Graças. As mulheres administravam tudo, cuidavam da roça, da caça, da pescaria, dos afazeres domésticos, dos poucos animais, tiravam o leite e comercializavam. E Salazar cuidava em divulgar pela região do Araguaia as suas histórias de bravura e suas aventuras tão famosas. Todos tinham medo de encontrar Salazar no meio da mata, era o retrato do próprio demônio. A família Pedreira, pela fama de valentia, era a mais respeitada. As treze filhas viviam basicamente do trabalho. Nenhum cavalheiro ou peão tinha coragem de aproximar-se delas. Havia na capital até cantadores que cantavam em verso e prosa a proeza dos Pedreiras. Toda a região sabia das histórias de valentia de Salazar. De como ele desceu o rio Araguaia enroscado no pescoço de um jacaré-açu até voltar com o couro do bicho nas costas. De como ele rolara ladeira abaixo com um leão. Ele já havia comido onça viva, e nunca houve maior matador de forasteiro naquela região como Salazar. A família e os parentes tinham orgulho de tanta proeza daquele homenzinho escuro, de bigodes retorcidos, que colocava todo mundo para correr com seu olhar diabólico e pelo tamanho do punhal que sempre carregava pendurado na cintura.

Salazar e os homens saíram do povoado dizendo que iriam caçar comunistas e ajudar o governo a imperar a ordem no país. A ausência dos homens não mudou muito a rotina do pequeno povoado. A sustentabilidade daquele povo dependia das mulheres corajosas, principalmente das treze Marias, como eram conhecidas, sob o comando da matriarca Maria Eugênia. No dia esperado da partida, Salazar subiu próximo à capela, o lugar mais alto e sagrado, por ter uma vista belíssima, reuniu os poucos homens e fez um discurso político:

- Meus amigos, chegou a hora de ajudar o nosso governo. Nós não temos leitura e nem ninguém mandou nos chamar. Mas como homens de fé e coragem vamos nos alistar nesta marcha para defender o Araguaia e nosso país, É vergonhoso ver comunistas escondidos nestas terras abençoadas por Deus. Nós, os homens de honra deste país, vamos ajudar a matar todo cabra da peste safado que se meter em defender esse demônio de comunismo. Meus avós já diziam que isso é coisa da besta e nós botar essa besta é pra correr.

Todos aplaudiram de pé e ele, vaidoso pelas palmas, prosseguiu:

- Confiamos este nosso povoado às mulheres. Entrego este povoado à minha senhora Maria Eugênia, mulher com sangue de homem. Entrego a produção e a pesca as treze Marias, e entrego a Deus toda a segurança. Mas se mesmo assim vier o mal, sei que elas vão lutar como homens, porque neste povoado as mulheres nascem com sangue e peito de homem.

Todos aplaudiram fervorosos e Salazar, vaidoso como sempre fora, retorceu os bigodes e desceu passando uma espingarda para a sua senhora, que a levantou gritando:

- Fartura e glória! E que nossos maridos voltem com a cabeça desses comunistas para enfeitar nossas casas!

Salazar tinha orgulho do Império, da liderança e da bravura de sua mulher. Na verdade, alguns curiosos diziam escondido que a sua valentia era confiança na mulher e nas filhas. Mas tanto a mulher como as filhas não deixavam perceber que era apenas um homenzinho mau, contador de histórias.

- Atenção pessoal, cachaça e churrasco para todos! Maria da Conceição matou uma capivara! Depois, todos devem se despedir de suas senhoras e contar o beabá direitinho.

Era Salazar abrindo a primeira garrafa de cachaça.

Antes de amanhecer, a expedição partiu tendo à frente Salazar Brutus e o seu compadre José Aroeira, conhecido e respeitado pelo grande conhecimento das ervas medicinais, seria uma espécie de enfermeiro do grupo.

As mulheres continuaram as suas tarefas rotineiras. O momento de maior falta dos homens era á noitinha, quando acendiam uma grande fogueira às margens do rio para ouvirem as estórias de bravura de Salazar e as estórias de assombração de José Aroeira ou mesmo as cantigas de viola do Zeca Araguaia.

O pior dia depois da partida dos homens foi quando Maria Eugênia começou a passar mal no meio de uma colheita de feijão. As filhas correram para uma pequena cabana que servia de ponto de apoio:

- Você nunca adoeceu mãe! (Era Maria dos Remédios, a caçula, colocando um pano com água fria na testa da mãe.)

- Maria da Cruz, chame dona Violeta.

- Mas mãe ela é parteira!

- Não chame ninguém! O moleque já vai nascer. Tire as camisas que este é macho!

- Moleque! Filho! Vai nascer!

As treze exclamaram sem compreender nada.

- Foi a despedida do seu pai. Eu sonhei que era menino macho. Salazar vai morrer de alegria e vai deixar esses comunistas para jacaré comer.

- A mãe já ta parindo, meninas!

Era Maria das Graças, a mais eufórica de todas.

- Também com essas roupas de peão, ninguém sabia que a mãe tava buchuda. Mas você já sabia, mãe?

- Claro, Maria Lara, só não quis preocupar vocês. Agora puxe, que o moleque já ta berrando! Eu sabia que era moleque macho, tem até saco roxo. Vai ser um peão famoso que nem o pai.

Foi em clima de festa que foi anunciado o nascimento de Bento Salazar, o Bentinho, como as irmãs o chamaram, por nascer pequenino, de rosto rechonchudo e olhos claros. Todas as mulheres faziam as contas da saída dos homens e do nascimento do menino. Também não entendiam como a mulher engravidara aos 43 anos sem nenhuma complicação. Maria Eugênica já chegava em casa pronta para fazer o jantar,como se não tivesse parido. As treze meninas cuidavam do bebê, irradiantes. No mesmo instante, Maria da Conceição saiu para caçar uma paca ou capivara para o churrasco. Caçavam apenas para a subsistência – Salazar jamais permitira a entrada de caçadores na região. A festa amanheceu o dia. Bentinho era o sexto homem presente no povoado. Maria Eugênia dançou com as comadres até o sol raiar.

De longe ouviram o som do berrante, os corações daquelas mulheres quase saíram pela boca: era o berrante de Salazar e seu bando. Todas saíram correndo para esperá-los. Maria Eugênia ia na frente com uma espingarda. Atrás dela, Maria José, e, no final, Maria Lua com Bentinho no colo e as demais mulheres, todas armadas e desejosas dos seus maridos.

De longe Salazar começou a atirar. Era o aviso de que chegavam em paz e com vitória. Porcos e galinhas foram mortos, já que Maria da Conceição avisara que a lua não estava apropriada para caça.

O momento mais emocionante foi quando Salazar viu o filho já com um ano nos braços de Maria Lua. Maria Eugênia pegou-o:

- É nossa cria, Salazar: Bentinho!

O homem ajoelhou-se diante daquela terra fértil:

- Vixe, minha Nossa Senhora Aparecida! Eu sabia que um dia ia nascer um cabra macho nesta família: meu Bentinho! Compadre Zeca Araguaia, Mirão, Mundico, Pachico, venham ver o meu Bentinho! Eu cuspo nesta terra em ação de graças a Nossa Senhora, eu me lambuzo com esta terra para dizer como sou pequeno diante das obras de Deus! Vamos, meu povo, cachaça e comida pra todo mundo! Depois de botar um monte de comunistas pra correr, recebo uma glória do Nosso Senhor Jesus Cristo. Salazar Brutus agora já pode morrer em paz! Aqui tem macho de saco roxo que vai comandar estas terras do Araguaia! Ninguém nunca vai esquecer as proezas de Bento Salazar Pedreira, o maior matador e caçador do Araguaia.

Foi uma semana de festa. Nunca aquele povoado bebeu, comeu e dançou tanto. Depois de entregar-se à farra e à folia, Salazar atirou-se nas águas cristalinas do Araguaia e amanheceu o dia com sua devoção em louvor à santa.

Bentinho cresceu diferente das demais crianças, tinha vontade de aprender a ler e a escrever, gostava de dançar. Em suas poucas conversas, para não decepcionar ainda mais o seu pai, falava somente para Maria Lua que sonhava em ir embora para a capital. Várias vezes Salazar bateu e espancou o menino e colocava-o para amansar animais, o que servia de riso para o resto das pessoas. As irmãs, além de Maria Lua, nenhuma aceitava o caminho que o irmão pretendia tomar.

Numa noite, olhando para a lua, ele disse para a mãe:

- Eu sonho ser artista, mãe. Todas as noites eu subo na capelinha, de lá posso ver o mundo. Quero dançar no circo, quero ler as letras, quero viajar o mundo inteiro. Não quero ter fama de matador, viver na mata caçando, feito minhas irmãs. Quero ser cantador de viola, quero ser poeta.

Imediatamente Maria Eugênia chamou Zé Aroeira para rezar com ervas medicinais sobre a cabeça do menino. Não resolvendo, contou a conversa para o pai. Durante uma semana Bentinho foi exposto amarrado ao sol para todo o povoado. Apanhou tanto que desmaiou.

Bentinho cresceu com uma idéia que só segredava para Maria Lua, sua irmã preferida: fugiria daquele lugar que ele tanto detestava. Salazar nunca mais foi o mesmo: entregou-se às bebidas, desaparecia por meses dentro da mata, de tanta vergonha do jeito esquisito do seu filho. Várias vezes os moradores o encontraram bêbado pelos cantos rogando à própria sorte. Salazar pedia todos os dias à santa que matasse o seu filho.

No período da pesca mais fluente, quanto os turistas descobriam as delícias do Araguaia, um cantador de viola apareceu pela região, um jovem cabeludo, com brincos e tatuagem. Todos ficaram horrorizados quando descobriram que ele havia estendido uma barraca nas proximidades. Os homens armaram-se como se fossem para uma guerra. Salazar era o da frente. Em nome da honra daquele povoado, aquele marginal vagabundo, despojado de todos os conceitos morais daquela comunidade, seria exterminado. A barraca ficava atrás da capela. Quando aproximaram-se já atirando tiveram uma surpresa inesperada: seminu, Bentinho, em plena adolescência, saiu dos braços do cantador.

- Se você atirar, pai, atire em mim primeiro!

Toda honra daquele homem caiu por terra.

- Filho desgraçado! Maldito!

- Eu estou apaixonado por ele, pai!

- Maldito! Eu te matar marica maldito que o diabo mandou para destruir esta família!

Zé Aroeira tomou a frente.

- Vista sua roupa, Bentinho, e vá para casa, você ainda é um menino e ninguém vai saber dessa sua fraqueza.

- Nada cobre tamanha vergonha, compadre! Essa peste é uma vergonha para minha família!

- Vá Bentinho!

Insistiu Zé Aroeira.

- Eu vou matar os dois ou não me chamo Salazar! Não é um frangote deste que vai me desafiar!

Os homens tiraram Salazar no meio da ira, as meninas entraram na barraca, Maria das Dores afiou a faca que carregava na cintura, enquanto as outras chutavam o rapaz. Maria das Dores saiu da barraca expondo para todos o pênis e os testículos do rapaz.

- Pronto meu pai, sua honra está preservada!

Horrorizado, Bentinho saiu correndo aos prantos. O pai gritava eufórico:

- Volte aqui desgraçado, eu não sou seu pai!

- É teu filho sim Salazar, um castigo da santa por tanta matança de inocentes tua e do teu bando!

Era Maria Eugênia odiosa das atitudes do filho e do marido. Toda a comunidade se rebelou contra Bentinho. Só Maria Lua, que tinha os mesmos desejos do menino, mas que sempre guardara em seus mais secretos desejos fugia sempre para observar a beleza dos seus cabelos negros e longos, quando as águas do Araguaia estavam cristalinas. Apenas uma vez Maria Lara a viu masturbando-se na beira do rio. Jurou para a irmã nunca mais cometer pecado tão grave. Contou ao padre e durante meses ficou em comunhão. Só Maria Lua ajoelhou-se diante daquela capelinha de pedra e pediu a todos os santos para proteger Bentinho.

O cantador de viola fora apedrejado até a morte. Por fim, como um troféu, Maria José entregou o seu pênis e os testículos ao pai, como prova de honra.

- Ninguém desafia Salazar Brutus!

O pai, vaidoso, pela primeira vez abraçou a filha. Estavam todas do seu lado, com exceção de Maria Lua. Ele, vaidoso, bradou:

- Minhas filhas, minha honra! Justiça seja feita, para nunca mais ninguém nesta comunidade desafiar as leis de Deus e de Salazar.

Marcharam para a capelinha e, quando abriram as largas portas de madeira, Bentinho havia se enforcado, mantendo um semblante de menino poeta e sonhador.

Depois de presenciar a morte do irmão, Maria Lua embrenhou-se nas matas e nunca mais foi vista. Alguns moradores dizem que toda noite de lua cheia uma mulher cabeluda aparece naquela região e uiva tão piedosamente que quem ouve chora pelo clamor do seu uivo.

Os poucos moradores que restaram contam que uma vez ela foi vista uivando na capelinha e foi reconhecida como a filha rebelde de Salazar Brutus.




Traços


Minha tristeza é visível e indivisível,

Minha tristeza tem nome,

Minha tristeza tem cara exposta em todas as vitrines de minha vida,

Minha tristeza almoça e janta,

Tem perfil familiar,

Tem sobrenome conhecido,

Tem sabor da desilusão,

Tem traços de desesperança.

Minha tristeza caminha e lamenta,

Estampa dores de ingratidão!

Minha tristeza tem um preço,

Traços, traças, recomeço.


Brasil com Z jamais

Pátria amada

Renasça para a vida dos teus filhos,

Acorde Pátria minha,

Acorde, ouça o batuque das panelas vazias,

Ouça o ronco das barrigas,

Veja a cara esquelética dos teus filhos,

Sinta o frio, a chuva e o calor nos barracos cobertos por plásticos,

Veja o tamanho da fila pra tudo!

Acorde Pátria idolatrada,

Não há investimentos na educação,

O dinheiro da saúde foi desviado,

Acorde Pátria para a igualdade,

Valorize a base,

Comece pela educação,

Brasil com Z jamais!



Sonho de Paz
Eu olho pro ar e sinto

Que uma atração capto no olhar.

Pego o lápis e papel e pinto

O mundo mais bonito que posso sonhar.



Dou as formas, as cores,

A paisagem, um céu bonito.

Os pássaros, campos e flores

E a lua doce brilhando no infinito.



Faço cidades lindas e calmas,

Campos floridos, rios e cachoeira.

Amanhecer sobre a estrela-D’alva...

E da tristeza? Faço uma fogueira!



Ponho em cada lábio um riso,

Em cada coração a paz e o amor,

E nas duras ruas de granizo

Seu pé descalço pisa sobre flor.



Sentado no morro olhando

O mundo imaginado. Que arquiteto Sou?

Se me perdi, esqueci pensando.

E o meu universo desenhando... O vento levou...


Poema para o Povo Brasileiro


Do Tocantins ao Tietê,

Enxadas na mão abrem o espetáculo do nascer do sol,

Ainda serena antes do sol visitar o planeta,

Enxadas na mão invadem a aurora,

Longos passos de esperança.

Ouve-se a cantoria,

São eles e elas acordando o amanhecer,

O barulho ofegante dos largos passos ecoa a longos quilômetros de miséria,

O bebê acorda e a cama já está vazia,

Os sonhos se elevam,

O peso das ferramentas estrangulam os sonhos,

Venta forte, vente frio,

Os chapéus de palha os acolhe,

O mato molhado recebe o compromisso de deixá-los ultrapassar,

A barrica ronca,

O rouxinol canta para animá-los,

O latido dos cães dão continuidade ao show,

Meio dia, barriga vazia, bóias-fria,

O homem e o rio...

O Tocantins o explora,

O Tietê abre as suas compotas selvagens,

O homem deixa o gado e a plantação

Pelo mundo da exploração!

A caminhada dos filhos órfãos do Brasil

Emudece no percurso longuiquo,

Paulatinamente seguem como animais flutuantes,

Sem rastro de gado,

Sem cantorias,

Sem alegrias, sem casas, sem rosas e sem fala,

São os filhos do Brasil se comprimindo nas favelas,

Vida urbana, suburbana,

E assim são tocados como gado para o abate.

Chega a eleição,

Nem a passagem para voltar é possível,

Discursos, promessas, ilusões,

Da caoticidade o povo é louvado,

Desestruturado, alienado e inconsciente,

O povo elege o seu inimigo!


VIAGEM LITERÁRIA


Uma vez viajei solitária numa grande embarcação, um navio imenso de idéias, metáforas, metomínias e hipérboles. Em cada porto que ancorava um novo aprendizado.

Uma vez voei num lindo avião azul de papel de seda, as cadeiras eram sílabas, as sílabas formaram palavras e na complexidade da palavra aterrizamos suavemente em terras regionais, alheias... O vôo foi emocionante!

Uma vez peguei um trem das onze, cada vagão um verbo, em cada verbo um advérbio, um percurso suave, lírico, épico, romântico, barroco e também realista. Foi uma viagem inesquecível!

Uma vez, uma única vez atirei – me num precipício, um balão imaginário de papel couchê, uma paisagem exótica nas Américas, nos continentes, nas civilizações. Foi uma viagem eterna!

Uma vez desprendi – me de tudo e viajei num tapete mágico de papel vergê, abri os braços como asas e respirei oxítonas, paroxítonas, proparoxítonas. Foi lindo!

Uma vez subi num carrossel de papel laminado que embelezava um parque, galguei longos quilômetros nas terras do Modernismo, Arcadismo, Romantismo; Voltei esplêndida de conhecimento!

Uma vez deslizei suavemente em carretéis de linhas, em círculos côncavos e convexos. Fizemos um caracol de poesias.

Uma vez beijei, meu primeiro beijo literário, entre a razão, emoção e flexão do substantivo, chorei, chorei lágrimas de papel machê.

Uma vez vesti – me de rei para a procissão, no desfile literário; próclise, ênclise, mesóclise e no meio delas, o povo.

Uma vez viajei num tablado mágico em que as pessoas representavam e da sua boca saiam: pleonasmos, cacófatos, solecismo, hipérbatos... Chorei de emoção!

Uma vez sentado numa cadeira, entrei numa tela plana e viajei, cidades cenográficas, arautos, reis e palhaços, saltibancos, colombinas, pierrôs e a história das guerras e civilizações. Corri assustada sendo arrastada pelo manto de papel celofane. Nunca mais esqueci!

Uma vez viajei em meu escritório, um mundo digital de figuras e informações, apertei uma tecla e visitei o passado, o presente e vi parte do futuro. Voltei atualizada e entusiasmada com tanto conhecimento!

Uma vez deitada em minha cama aconteceu a metamorfose;

primeiro nasceram asas de papel, depois voei.


Apartheid Humano


Segregação racial na áfrica do Sul,

Período colonial,

Nova eleição, 1948,

regime de segregação até 1994,

vergonhosa a proposta do Partido Nacional africano,

milhões de negros cerceados pela minoria branca,

ingleses e holandeses no poder,

cidadania cassada, direitos humanos privados,

mortes aos inocentes, as graúnas foram feridas dentro de casa,

pátria bantusões,

sem saúde, sem educação, sem cidadania,

violência, atrocidades em nome da cor,

Apartheid, demônio branco cerceador de sonhos,

Embargo comercial, protestos, revolta popular, resistência,

CNA- Congresso Nacional Africano para combater,

Uma Nação chamada Mandela,

Um presidente chamado Frederik Willem de Klerk, 1990,

Eleições multirraciais e democráticas, 1994,

Nelson Mandela prisão perpétua,

Após 27 anos de cárcere

É o primeiro presidente negro.

Governo transparente e para todos os homens,

Independente do sexo, cor e raça!

 
 
A PALAVRA E O POETA


Todo poeta é melancólico,

a poesia trás às margens as dores do mundo,

a poesia tem o dom de ver a alma das pessoas,

poema são veredas nostálgicas.

Todo poeta sente a solidão dos infelizes,

O poeta vive acorrentado às metáforas, hipérboles e metomínias da vida,

No Navio Negreiro, estava o poeta escravizado,

o poeta carrega o fardo da desilusão,

o poeta sente a agonia dos oprimidos,

e por ser um carregador de palavras

Tem a sublime missão de transformar a dor em alegrias,

Ele extrai da essência da dor,

fontes de esperanças.

A palavra, esta mágica simbologia histórica,

Nobre, etérea, luminosa, verdejante, carpideira,

Mórbida, celestial, jubilosa, efêmera, envaidecida, profana...

Somente ela pode matar e salvar o estilo literário e o poeta.

A palavra não morre!

O Poeta é eterno!